Inventário para renascer.

Um belo dia você acorda de si mesma e desperta para um universo nunca acessado. Temos um estranho dentro de nós. Ou uma estranha. A que vive aqui dentro é uma anciã que em momentos de aguda angústia, me puxa pra perto e me explica o vale das sombras e que posso tudo, menos tomar distância de mim mesma. Essa anciã funciona como uma árvore-mãe. Forte, com tronco e raiz profunda, que viaja por debaixo da terra mais do que eu com as minhas pernas. Visita paisagens subterrâneas, enlamaçadas, lugares onde a poeira comeu rastros e a água escura fez morada. Aí nesse lugar ela acessa e toca personagens fantásticos, almas que aqui na superfície vou encontrando em formas humanas, mas que no submundo são tão extraordinárias e mágicas como a anciã que vive aqui. Ela vai passando por esses caminhos turvos em busca de um sol.
Às vezes o sol insiste em se esconder e é preciso amar a escuridão e fazer-se parte dela. A viagem  iniciática é algo sem volta. Agora que posso tocar em memórias e espaços antes invisíveis, posso também chorar sem medo de me perder. A dor se faz reconhecível e parte da jornada. É só mais uma etapa, a qual vamos passando. Renascer é mais doloroso que morrer. Só se morre uma vez e muitas vezes sem escolha. Mas renascer,não. Renascer exige coragem, bondade e gentileza consigo. A caminhada não para e por isso refaço esse blog como um registro, um repositório de sensações, de lembranças selecionadas, de viagens geográficas e viagens internas, essas que acontecem na mente e no coração dos viajantes. Essas que nos tornam mais humanos mesmo acessando mundos mágicos com seres inimagináveis. Continuo grata pelos meus caminhos e pessoas, pelos monstros que encontrei, às vezes dóceis, outras nem tanto. Mas o caminho se faz entre alvo e a seta. Entre sangue e alegria. Entre armadilhas e porto. Entre a alegria de ser e a lágrima de perder por ser quem somos.

De que serve a terra à vista se o barco está parado? O barco não pode parar nunca.

Isabel Viana, 23 de abril de 2018

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